Orpheu Leal

Como é bom viver em Paz!

Textos


LIA E MEL
 
     Dona Maria Luiza morava numa pequena casa, em Pirapetinga, interior de Minas Gerais.
      Era viúva e tinha duas filhas, já mocinhas: Lia e Mel, criaturas maravilhosas, meigas, inteligentes e estudiosas. A diferença de idade entre elas era de apenas dois anos. Lia, a mais velha, tinha dezenove anos. Ela namorava um jovem da mesma idade, seu vizinho. Os dois faziam planos para, num futuro próximo, arranjarem emprego e, assim, concretizarem o que mais queriam, isto é, o matrimônio.
    Mel era aquela doçura, mas nunca teve um namoro duradouro. Um dia apareceu na cidade um rapaz simpático, bem vestido, loquaz. Chegou de trem. Hospedou-se no único hotel ali existente. A notícia da chegada do rapaz, logo se espalhou. As moças queriam saber quem era ele. Ao preencher sua ficha no hotel, declarou ser representante de laboratório, solteiro, morador do Rio de Janeiro. Deixou nome completo, número da carteira de identidade e endereço. Telefone não tinha, por que, naquela época, quase ninguém possuía tal meio de comunicação.
      Quando chegou a noite, quis conhecer a cidade. Era verão, céu cheio de estrelas, muita gente passeando pra lá e pra cá. O recém chegado estava meio atordoado por causa da viagem e esbarrou, sem querer, na Lia; pediu desculpas, puxando logo um assunto, como bom conversador. Apresentou-se à moça, falou das belezas do lugar e elogiou o povo acolhedor. Procurou saber o nome e endereço dela, gravando-os na memória. Ela se descartou dele, dizendo que passeasse à vontade e que ela iria encontrar-se com o namorado.
      No dia seguinte, pegou a maleta, seguiu em direção ao hospital, falou com diversos médicos, e deixou amostras grátis em profusão. Lembrou-se do endereço da Lia e foi direto pra lá.
      Era uma casa modesta, com muitas flores no jardim. Tocou a campainha. Quem o atendeu foi Oswaldo, namorado da Lia, que entreabriu o portão.
      ― A Lia está? ― perguntou o forasteiro.
      ― Quem é você e o que quer com ela?
    ― Meu nome é Décio; encontrei-a ontem, por acaso e, depois de elogiar a educação do povo desta cidade, perguntei-lhe se nascera aqui. Ela confirmou, dizendo que residia nesta rua, número 112. Gostaria apenas de agradecer-lhe, nada mais.
      ― Pode deixar que eu digo a ela. Agora, já que está dado o recado, pode ir embora e não precisa voltar mais aqui, entendeu?
      Fechou o portão.
     Décio ficou desconsertado, dirigiu-se ao hotel e, curioso, perguntou a uma funcionária se conhecia uma jovem com o nome de Lia, da rua dos Abacateiros, 112. A moça respondeu logo:   
      ― Ela é filha da Dona Maria Luiza, que é viúva, e tem outra filha chamada Mel, um encanto de garota, de dezessete anos. A Lia tem um namorado, Oswaldo, que é muito ciumento.
      ― E a Mel, como ela é?
      ― Ela é um doce, mas não tem namorado.
      Décio achou melhor permanecer mais uns dias, para visitar dois médicos, em seus consultórios. Antes, resolveu passar em frente à casa de Dona Maria Luiza. Criou coragem e tocou a campainha. A própria Dona Maria Luiza atendeu, e perguntou o que o moço queria.
      ― Ontem fui recebido pelo Oswaldo, que nem me deixou falar; foi logo me despachando e fechou o portão na minha cara. A senhora, Dona Luiza, é muito educada e cortês. Sou funcionário de um laboratório de produtos farmacêuticos e estou aqui a trabalho. Volto amanhã para o Rio de Janeiro. Não quero deixar má impressão e, por isso, estou aqui só para me desculpar.
      As filhas foram saber por que a mãe não voltava, e encontraram o forasteiro. Ele ficou temeroso de deparar novamente com o Oswaldo. As moças cumprimentaram-no e ele se desmanchou novamente em desculpas. Ficou admirado com a educação de mãe e filhas.
     Mel achou-o maravilhoso, um verdadeiro príncipe encantado. Ele pediu um copo d’água e disse que, em trinta dias, estaria ali retornando, para reforçar os laços de amizade com elas e com o próprio Oswaldo. Pegaria o trem no dia seguinte. Encantou-se com a Mel. Passou um mês e lá estava ele, de novo, no hotel. Curioso, perguntou à mesma funcionária, que o atendera anteriormente, sobre a família da Dona Maria Luiza.
      ― Está tudo bem, disse ela.
      ― Será que você poderia me auxiliar, dizendo à Dona Maria Luiza que eu gostaria de conhecer melhor a família? Mas, se o Oswaldo estiver por perto, não diga nada. Pergunte se elas podem me fazer uma visita, aqui no saguão do hotel, amanhã, até o meio-dia. Espero ansioso por elas. Gostei muito da Mel. Não fique ofendida, mas por ter me ajudado, segure este pequeno agrado de R$50,00 e insista para que venham.
      No dia seguinte, às dez horas, as três foram ao hotel. Conversaram animadamente e ele disse que morava só, seus pais tinham morrido e vivia isolado feito um ermitão. Ganhava um ordenado razoável e queria constituir uma família, ter filhos; precisava arranjar uma noiva e, dentro de três ou quatro meses, casar. Olhou  fixamente para a Mel e não disse nada. Dona Maria Luiza chegou a duvidar das palavras dele. Achou muito corrido e fácil. As moças acreditavam no que dizia o príncipe encantado. Resolveram as três convidá-lo para almoçar, no dia seguinte, na casa delas, já que Oswaldo tinha ido fazer um concurso público em outra cidade e só voltaria três dias depois.
      No dia seguinte, conforme o combinado, almoçaria na casa delas. As moças ficaram eufóricas e já estavam vendo um compromisso sério, isto é, um noivado próximo, e um casamento o mais rápido possível para Mel.
      O rapaz visitou os médicos, pela manhã e caminhou pausadamente até a casa da futura noiva, para o esperado almoço.
      Fizeram um lauto almoço, regado a vinho, com sobremesa de doce de laranja, feito pela Mel. No dia seguinte pegaria o trem e só voltaria 30 dias após.
      ― Ó, meu Deus, quanta saudade! ― disse ele.   
    O tempo passou e novamente ele voltou, para visitar os médicos e, é claro, a família da namorada. Perguntou no hotel sobre as novidades, e a funcionária informou-lhe que o Oswaldo havia passado no concurso e estava aguardando a chamada para o emprego.
      Décio saiu cedo do hotel e, tomando uma dose de coragem, foi até a casa das três, para uma visita de cortesia. Foi recebido alegremente, embora não tenha anunciado previamente, como é de praxe fazê-lo. 
      Ficara na sala conversando animadamente, quando chegou Oswaldo, que ficou parado, junto à porta, completamente atordoado. Depois de Dona Maria Luiza quebrar o silêncio, fazendo a apresentação do convidado, o namorado da Lia não teve outro jeito senão participar da conversa, com muita reserva.
   Décio tomou a iniciativa e falou das boas intenções dele para com toda a família, principalmente com a Mel, sua futura noiva.
   Oswaldo ficou atônito com a notícia. Mal conheceu a garota e já está falando em noivado?    
     Depois de meia hora de conversa, Décio resolveu ir embora e disse que voltaria um mês depois, já com as alianças de noivado.
      No mês seguinte, já voltou com as alianças e, conforme prometera, tornou-se noivo de Mel. E, assim, saíam a passear, como dois pombinhos, aos beijos e abraços.
      Um irmão de Dona Maria Luiza estranhou tanta rapidez na resolução de Décio que, sem ninguém saber, esperou que o forasteiro viajasse e, com habilidade, procurou o gerente do hotel, seu amigo, que lhe passou todos os dados do rapaz.
      No dia seguinte, viajou no primeiro trem e foi parar em São João de Meriti, na rua e número indicados. Era uma casa simples, pequena, num lugar pobre. Não bateu lá. Procurou um armazém bem próximo e indagou com o proprietário se conhecia o Sr. Décio Menezes, da casa 82, ali pertinho. O dito proprietário não teve dúvida, deu toda a ficha do indivíduo, principalmente o fato de ser caloteiro. “É casado, mora com a mulher e dois filhos pequenos.” Disse o nome dela e dos filhos. Disse, também, que ele viajava muito, não deixava dinheiro para a mulher e ela comprava alimentos fiados. “Enfim, ele tem conversa, mas não cumpre o que promete.” Não iria falar nada com o pilantra para não espantar a lebre.
      ― Se o senhor é credor dele, esteja certo de que vai levar calote.
      O tio de Mel e Lia ficou extremamente decepcionado. Retornou a sua cidade e contou tudo à irmã e às sobrinhas. Que ele não passava de um grande trambiqueiro, que tinha mulher e dois filhos. As três quase morreram de susto.    
      As duas moças aprontaram para ele uma grande surpresa: quando voltou, todo sorridente, deixou suas malas no hotel e, ao sair, seis rapazes encapuzados cercaram-no. Na base de pauladas, deram-lhe uma surra, até ficar caído no chão. Fugiram todos e ninguém viu nada. O homem foi socorrido e levado para o hospital, não mais como representante de laboratório, mas como paciente mesmo.
      Quando recebeu alta, riscou Pirapetinga, definitivamente, da lista de cidades a serem visitadas.



                       
Orpheu Leal
Enviado por Orpheu Leal em 16/07/2015
Alterado em 18/07/2015


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